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Virgínia Goes
“Para além do Xadrez”

Exposição na Galeria Municipal de Albufeira
9 de Dezembro de 2006 a 6 de Janeiro de 2007

A obra da pintora Virgínia Goes é fascinante pela temática escolhida e pelo texturamento da mesma. A escolha do simbolismo no Xadrez torna a sua obra única no panorama nacional e associa-se ao muito que se tem feito no estrangeiro sobre esse tema ao longo de vários séculos e com especial relevo na actualidade com os trabalhos de Marcel Duchamp e de Maria Helena Vieira da Silva.

O conteúdo simbólico dos seus quadros reflecte um conhecimento profundo do simbolismo em geral e do Xadrez em especial. E este conhecimento tem vindo a aprofundar-se através dos estudos a que se tem dedicado ao longo da sua carreira. Estudos de elevado rigor e que lhe têm permitido a criação de obras de elevada qualidade.

Tenho tido oportunidade de acompanhar o seu labor na minha qualidade de iconólogo, historiador da arte e do Xadrez e verifiquei o cuidado que põe na preparação das suas obras e do crescente interesse pelo estudo de uma temática que carece, ainda entre nós, de um mais apurado aprofundamento. Há além disto, uma persistência na inspiração da obra de Jeronimus Bosch de que a pintora tem um amplo conhecimento.

Por tudo isto, considero que a obra de Virgínia Goes vem contribuir para o enriquecimento da arte e da cultura portuguesas que manifestamente as vem valorizar nas suas repercussões internacionais.

Dagoberto Markl
Vogal Correspondente Nacional da Academia Nacional de Belas-Artes de Lisboa

Virgínia Goes e o xadrez.

É uma honra e um privilégio para a cidade de Lisboa, em geral, e para os iniciados da pintura, em particular, ter a oportunidade de poder mostrar, de novo, na Biblioteca Museu República e Resistência a obra de uma genial pintora.

É certo que a sua obra é já internacionalmente conhecida. Tarda, porém o reconhecimento nacional da sua excepcional pintura, mormente nesta feliz e inédita associação ao xadrez, tema quase sempre recorrente, na sua arte simbólica.

Não poderíamos, pois, deixar mais esta importante mostra sem uma palavra de agradecimento e de júbilo.

Em primeiro lugar, de agradecimento por ter escolhido a Biblioteca Museu República e Resistência – Espaço Cidade Universitária para realizar esta exposição. De júbilo porque quer do ponto de vista pessoal quer do ponto de vista institucional temos a garantia de que iremos usufruir de mais uma extraordinária exposição de pintura e que a poderemos partilhar com um crescente número de interessados na obra da Artista sobretudo, por esta temática, de forma especial.

Lisboa, 5 de Novembro de 2005.
João Mário Mascarenhas

 

PRAECIPIO

O xadrez é a euforização do racionalismo, clímax do pensamento matemático, depuração da estratégia, purificação do estruturalismo. É um jogo de combinações de multiplicidade exponencial, previamente compostas, mas sujeito ao imprevisto, ao surpreendente, tocando o grito, apesar da sua lógica quase perfeita.

Oriundo da Índia, o simbolismo do jogo está ligado à estratégia guerreira e diz respeito, tal como se lê na narração de Bhagavad Gîtâ, à casta Kshatriya. A batalha trava-se entre as peças brancas e as pretas, entre a luz e a sombra, entre os Titãs e os Deuses. O jogo entre o rei Wou-Yi e o Céu foi um combate entre o mocho e o faisão: o objectivo da batalha é sempre, em todos os casos, a supremacia sobre o mundo.

Na sua forma elementar, o xadrez é a mandala quaternária simples, símbolo de Xiva transformador, equivalente ao Yin-Yang chinês. O xadrez tem 64 casas (64 é o número da realização da unidade cósmica), é o Vastupurushamandala que serve de modelo à construção dos tempos, à fixação dos ritmos universais e à cristalização dos ciclos cósmicos. O xadrez é assim um campo de acção de poderes cósmicos (Burckardt), campo que representa a terra (quadrado) limitada aos seus quatro horizontes. A mandala, enquanto símbolo da existência, luta de valores, é extrapolável para o interior do ser humano. O xadrez é uma figura do mundo tangível (manifestado), tecido de luz e sombra, alternando e equilibrando o Yin e o Yang.

Todavia, o xadrez é também, na pintura de Virgínia Goes, o exercício de uma disciplina ascética, uma prova transcendental, uma simbologia mítica, onde habitam os guerreiros da luz, o silêncio e a solidão sob um luar inspirador, o medo, os cavalos pretos (arquétipos da beleza e vitalidade), a sorte e o azar, as tartarugas (símbolo da harmonia cósmica), o tempo, o sol que gera as sombras (entre a luz e as trevas) enquanto alegoria da luta entre as duas forças elementares da natureza: os espíritos do bem e do mal, os inimigos invisíveis, o sonho, o eterno feminino, as ilusões, o desejo, as emoções, as mandalas e o xeque-mate.

Na sua pintura, a artista mostra-nos a essência deste jogo de reis e rei de todos os jogos, exigindo o domínio não apenas dos adversários ou de um território, mas sobretudo de nós mesmos, porque a divisão interior do psiquismo humano é também um palco de combate. E que de qualidades precisamos para o jogo e para tal batalha! Na sua arte, Virgínia Goes sublinha o simbolismo da aceitação da matriz da alternância e desvenda a imagem dos actos dos seres humanos no xadrez das suas aspirações.

O tabuleiro de xadrez transfigura-se no chão de um templo que a sabedoria maçónica explica como a dualidade entre o bem e o mal, permitindo os passos em linha recta, sempre nos quadrados brancos ou nos quadrados pretos, ou pisando as duas cores que significam o trabalho simultâneo no bem e no mal, ou em círculo ou em cruz sobre as quatro lajes, que representam as duas dualidades, circunferenciando as linhas traçadas que simbolizam a criatividade para além do estabelecido, rectificando, assim, as linhas, como pressuposto da criatividade pura.

Como nos diz Roger Caillois, “a alternância entre as peças brancas e pretas … é também o dia e a noite, o entusiasmo e o controlo, o êxtase e a contenção, mas a característica mais importante é…, numa tal combinação absolutamente coerente, não haver nenhuma peça que não tenha repercussão sobre as outras.

Somos um Todo indivisível.

Agradeço à Virgínia Goes a advertência que, através da sua pintura, nos provoca: somos Um na plenitude do Amor e da Liberdade, porque, tal como a Arte, o Xadrez e a Vida, tudo é imprevisto e surpreendente.

Margarida Ruas Gil Costa
Directora do Museu da Água, Lisboa

 

Madeiras, 1ª Fase

A tendência actual da criação artística de Virgínia Goes é um claro mergulho naquela vertente da arte contemporânea que elege como auto-representação quer o objecto natural quer o objecto recuperado ao desgaste do uso quotidiano. Isto é, tal objecto é em simultâneo o significado e o significante da representação. E no acto do objecto se dar a ver, mas com a intenção de produzir significação, em circunstâncias que o desligam do contexto da sua existência ou da função inicial para que foi criado, está implícita a pretensão de ser entendido como objecto artístico. É neste sentido que devemos entender as experiências actuais de Virgínia Goes que não teme a aventura salutar de caminhar por uma senda tão semeada de riscos.
A madeira é o campo de exploração de Virgínia Goes. Entre o provável tronco de árvore ou o caixilho de uma janela ou a porta de um armário, por exemplo, organiza-se o seu discurso. Texturas naturais da madeira, veios e nós, marcas de golpes da acção humana, feridas mais ou menos profundas na superfície da madeira, cravagem de pregos, orifícios espaçados ritmicamente, vestígios de padrões decorativos na almofada de uma porta, tudo serve à pesquisa de uma descoberta de sentido que procura, com intervenção da imaginação, uma ordem figurativa nestas marcas aleatórias exibidas pelo corpo da madeira. Por exemplo, nas superfícies pintadas e repintadas em densas texturas rugosas, os nós da madeira podem ser transformados quer numa rosácea de catedral gótica quer na voluta de um capitel jónico, elementos que Virgínia Goes combina na estruturação de brumosas arquitecturas de um fantástico ecletismo. E o único resultado obtido é uma irónica alusão à transparência dos modelos artísticos do passado ali referenciados. Tudo se transforma num jogo cujas regras estão claramente expostas.
Mas não é só neste sentido que Virgínia Goes vai. Virgínia Goes hesita entre a possibilidade de se prender a uma figuração, ainda que sujeita ao aleatório, e a possibilidade de assumir a totalidade brutal da objectualidade do material que manipula. E cremos que é quando explora esta segunda possibilidade, vizinha de tanta experiência informal e objectual, que a coerência dos resultados é maior. Assim, o caixilho de uma janela é mesmo o caixilho de uma janela que, pelo simples facto de ter sido subtraído à sua função inicial, nos obriga a que o vejamos agora de uma maneira nova, isto é, apreciando as suas inegáveis qualidades plásticas resultantes da deterioração que as marcas do tempo nele deixaram. E abre-se assim um diálogo entre o espectador e o espaço/tempo de um objecto que, pelo estatuto artístico a que aspira, se assume agora na sua singularidade. E quando isto se verificar o objectivo da proposta de Virgínia Goes terá cumprido completamente a sua finalidade.

David Lopes
Prof. na Sociedade Nacional das Belas Artes, Lisboa

 

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